FED sem limites. Será mesmo?

O Fed anuncia novos programas para fornecer liquidez

Em resposta à piora nas condições macroeconômicas globais, ao aumento nas medidas de confinamento adotadas por estados dos EUA, à queda ininterrupta das bolsas de valores e aos sinais crescentes de tensionamento da liquidez, o Fed anunciou uma nova rodada de medidas para manter os mercados financeiros funcionando e fornecer empréstimos mais diretos aos setores mais necessitados. A nova rodada de medidas:

·       Incluirá compras ilimitadas de títulos do Tesouro e hipotecários – anteriormente limitadas a 500 bilhões de dólares e 200 bilhões de dólares, respectivamente.

·       Fornecerá mais 300 bilhões de dólares em financiamento novo para empregadores, consumidores e empresas através de um novo programa a ser definido e capitalizado pelo Tesouro dos EUA, com 30 bilhões de dólares vindo do ESF (Exchange Stabilization Fund, Fundo de Estabilização Cambial).

·       Criará duas novas intervenções de crédito para apoiar grandes empregadores: o PMCCF (Primary Market Corporate Credit Facility), para a emissão de novos títulos e empréstimos, e o SMCCF (Secondary Market Corporate Credit Facility), para fornecer liquidez. Somente empresas com grau de investimento poderão participar. Elas se beneficiarão de um intervalo de financiamento de quatro anos.

·       Ressuscitar o TALF (Term Asset-Backed Securities Loan Facility) para encorajar a emissão de títulos lastreados em ativos (ABS, Asset-Backed Securities) com lastro em empréstimos estudantis, empréstimos de automóveis, empréstimos de cartão de crédito e empréstimos garantidos pela Administração de Pequenas Empresas.

·       Tornar títulos municipais com taxas variáveis e certificados de depósito bancários elegíveis para o MMLF (Money Market Mutual Fund Liquidity Facility)

·       Estender os títulos visados pelo CPFF (Commercial Paper Funding Facility).

·       Criar um Programa de Empréstimos para Empresas Menores para apoiar empréstimos a pequenas e médias empresas.

Sinais diferentes do mercado mostraram uma multiplicação do tensionamento de liquidez

Uma série de indicadores mostrou que diferentes mercados passaram por episódios de tensão em termos de liquidez. O mercado do tesouro, o mercado de ABS, o mercado do endividamento privado e a liquidez dos derivativos tiveram uma ampliação significativa dos spreads analisada pelos investidores. Isso mostrou que não há alternativa atual ao dinheiro e que há riscos a-sistêmicos. Devemos nos lembrar de que o congelamento do mercado monetário em 2008-2009 foi um dos gatilhos mais importantes da crise. Recentemente, o aspecto mais notável desse processo de ressecamento na liquidez se relacionou ao mercado de títulos lastreados em hipoteca (MBS, Mortgage-Backed Securities). Apesar das imensas quantidades de liquidez injetadas na economia, as taxas de hipoteca aumentaram conforme o congelamento do mercado de MBS (lastreado por ativos de hipoteca) incitou os bancos a estreitar significativamente suas condições de crédito. Podemos ver claramente a ilustração de uma transmissão ineficaz da política monetária (ver Figura 1). Para evitar a escalada da atual crise (congelamento total das condições monetárias e financeiras, o que teria consequências ainda mais devastadoras e duradouras), o Fed decidiu ampliar seu arsenal para combater a atual crise de liquidez (além da crise sanitária e econômica).

Cuidado com o erro nas políticas. Empréstimos sob as linhas PMCCF e SMCCF só valem para empresas com grau de investimento. Isso pode indicar que o Fed não está disposto a apoiar empresas de rendimento elevado (HY, high-yield). Essas empresas têm uma qualidade de crédito muito mais baixa e, portanto, terão muito mais dificuldade para refinanciar durante a crise atual. Isso pode ser especialmente arriscado, uma vez que agora há um mercado HY muito maior do que na crise financeira anterior – mais especificamente, uma parcela muito maior de empresas com classificação BBB, prestes a serem consideradas más pagadoras. Este setor do mercado de títulos, portanto, está em risco de passar por uma reclassificação e pode passar por uma súbita parada em termos de acesso a recursos. Esse cenário de reclassificação pode prejudicar a recuperação significativamente. A separação do segmento de HY do grau de investimento em termos de dar acesso a linhas de crédito ou liquidez é comparável a não dar prioridade a spreads soberanos ao conduzir a política monetária na Europa.

Evitar a todos os custos uma crise prolongada e duradoura. Vários programas foram criados para fornecer recursos diretamente a empregadores e consumidores. Essas novas intervenções, chamadas TALF, PMCCF e SMCCF são bastante próximas da canalização de dinheiro diretamente a atores do lado real da economia. Elas consistem no Fed agindo de maneira coordenada com bancos e o governo para emprestar dinheiro diretamente a atores econômicos, adotando a filosofia de um GBCF (Government-Backed Credit Facility), ou intervenção de crédito lastreada pelo governo, com base na cláusula 13(3) da Federal Reserve Act. Na semana passada, consideramos provável que uma estrutura desse tipo seria ativada (ideia de Kevin Warsh, antigo membro do Federal Reserve). Ao controlar a crise da liquidez e optar cada vez mais por crédito direto para o lado real da economia, o Fed visa evitar que o choque temporário atual se transforme em uma crise prolongada e duradoura.